‘Looking’ e uma crônica de identificação televisiva

Por Flávio St Jayme

LOOKING
Dom, Patrick e Agustín

Não é comum nos identificarmos com personagens de ficção. Geralmente suas vidas, seus propósitos e objetivos são muito mais mirabolantes que os nossos, meros mortais da vida real. Nem sempre temos um passado turbulento ou um desejo de vingança incontrolável, quem dirá então superpoderes, uma profissão de espião internacional ou somos atacados por zumbis, dragões, vampiros ou monstros afins.

Então por que Looking nos causou tanto conforto? Sim, vivemos em uma época em que personagens gays estão cada vez mais em voga e em evidência. Seja no cinema ou na TV. Basta lembrar de casos como os longas Tatuagem e Hoje Eu Quero Voltar Sozinho ou de Félix e seu Carneirinho na novela Amor À Vida ou das personagens de Fernanda Montenegro e Nathália Timberg na recém começada Babilônia. E isso só para falar de produções brasileiras.

Nas séries americanas então, parece norma: quase toda série no ar atualmente tem um personagem gay pelo menos: How To Get Away With Murder, Dig, Orange Is The New Black, Revenge, The Fosters, Modern Family, Game of Thrones, Gotham… e por aí vai. Então, repito, por que Looking nos causou tanta identificação e conforto?

Já não tivemos GleeQueer As Folk? Pois é. O primeiro talvez nos parecesse adolescente demais. O segundo passava por conflitos que talvez nem todos nós nos identifiquemos: preconceito exacerbado, necessidade de sexo constante e guetos. E quanto à Will & Grace? A série durou seis anos e trazia a dupla de amigos (ele gay) em inúmeras histórias cheias de humor. Mas nossa vida não é uma sitcom (infelizmente). Looking, por sua vez, retrata uma comunidade gay onde facilmente podemos nos ver. Quem, como eu, nunca sofreu preconceito exagerado e quer apenas viver sua vida, do seu jeito, sem necessidade de guetos ou sem pensar em sexo 24 horas por dia (sdds Bryan) consegue facilmente se ver entre os personagens da recém-cancelada série da HBO. Somos da mesma idade, temos a mesma situação econômica, buscamos as mesmas coisas.

Patrick (Jonathan Groff) é romântico, quer a relação perfeita, quer encontrar sua cara metade; Agustín (Frankie J. Alvarez) é o artista incompreendido meio sem rumo na vida, que vai  pra lá e pra cá; Dom (Murray Barlett) é o amigo mais velho e mais maduro que, no entanto, ainda não se encontrou profissional e emocionalmente; Kevin (Russell Tovey) é bem sucedido e acredita em um relacionamento aberto e distante das normas “heterossexuais” de relação. Quem não consegue se ver em um destes personagens ou ver amigos? Eu consigo marcar pelo menos um amigo em todos os rostos de Looking. Mais de um algumas vezes.

Nos sentimos tão confortáveis, tão bem retratados pois vemos (ou vimos) na tela pessoas comuns. Sem grandes planos de vida, sem grandes maquinações. Apenas pessoas que vivem suas vidas de forma comum, um dia depois do outro. Assim como nós. Não existem conspirações, perseguições. O objetivo de vida de Patrick, Agustín, Dom e Kevin é apenas ser feliz. Assim como o nosso.

O fato de Looking ter sido elogiado pela crítica e no entanto ter sido cancelado por falta de público reflete, no entanto, que talvez nem todos queiram se ver na tela da TV. Queer As Folk, que tinha várias histórias relacionadas fortemente a preconceito (não só de ordem sexual) teve seis temporadas e cada episódio era recheado por cenas tórridas de sexo, interpretadas inclusive por atores heterossexuais. Pode ter a ver, ou pode não. Hoje existe muito mais liberdade que em 2000, quando QAF estreou. Mas mesmo assim, é pena que um programa que conseguiu retratar tão bem uma geração, um nicho e um modo de vida tenha sido eclipsado por outros programas. Ou mesmo pela vida real de pessoas que, assim como os personagens, buscamos a felicidade dia após dia.

7 comentários em “‘Looking’ e uma crônica de identificação televisiva

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  1. Flávio,

    Resenha perfeita, adorava a série e realmente era essa a sensação que tinha a cada episódio, me identificava muito com o personagem principal, o Patrick, muito de nós inclusive. Assisti alguns episódios de Queer as Folk, embora as comparações sejam quase inevitáveis, talvez pelo nicho de público das séries, não consegui identificar-me, o que não quer dizer que isso não me tenha feito gostar. Pra mim, elas são diferentes e cativam a seu modo, particularmente, gosto da realística imposta na série, inclusive nas cenas de sexo. Havia muito potencial à ser explorado na série, mas enfim, resta-nos lamentos e esperar o provável telefilme, que encerrará esta bela história.

    Apenas uma correção, a novela do Félix (Mateus Solano), chamava-se “Amor à Vida”, “Fina Estampa” foi a novela que consagrou o “Crô”, o personagem caricato (ah vá) interpretado por Marcelo Serrado, que mais tarde ganharia um filme.

  2. The question is…: eu acho que a maioria do público da nossa idade como você discutiu muito bem no seu texto e em todas as idades é que não queremos nos ver como somos, nossa superficialidade sobre nossas próprias vidas está em nível alarmante… é triste nós querermos buscar na arte uma fuga da nossa realidade, nos refletirmos em personagens bem sucedidos com sexo fácil, sem problemas e dramas pessoas, e vivermos nesses personagens aquilo que está no mundo da ideologia gay, belos, inteligentes, ricos, sarados, aceitados, quando a realidade da nossa maioria é o contrário. Duvido que assim seria, mas meu sonho é ver uma série tratando, preconceito na sua forma mais sutil, suicídio que ainda é comum, desenvolvimento, sucesso após trabalho e dificuldades, casamento, família, no meio homossexual. Louvemos para que um dia aconteça numa série na TV de preferência, não num longa metragem.

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