3% – Primeiras impressões

Com muito alarde, a Netflix anunciou a estreia da sua primeira série brasileira: 3%. Quando você para e pensa que um canal que produziu obras excelentes como Grace and Frankie, Sense8, Stranger Things, a última temporada de Black Mirror ou séries premiadas como Orange is the New Black Hose of Cards estará por trás de uma série brasileira, é claro que você anota na agenda e se prepara para ver tudo de uma vez só.

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Pois então esteja preparado, muito bem preparado, porque a decepção é proporcional à expectativa. Faltam adjetivos para expressar o quanto 3% é ruim. Talvez a melhor palavra seja: constrangedor. A produção, anunciada como a “primeira série original brasileira do Netflix” já peca quando é anunciada como original. Nada ali é original.

A história requenta a lenga-lenga distópica que todo mundo já viu em Jogos Vorazes/Divergente/O Doador de Memórias/A 5ª Onda, ou para os mais cults, O Big Brother, de George Orwell (que, spoiler, nada tem a ver com o programa de TV) com um diferencial: consegue ser pior que o pior deles. Num futuro onde o país se dividiu em duas classes (uma rica-dominante e outra pobre-predominante, claro) a população luta para sobreviver enquanto anualmente 3% da população é escolhida para ir para o mundo dos mais ricos e bem aventurados. Daí tome adolescentes com discursos virtuosos e contra o “sistema” pra se rebelar e acabar com tudo (*pausa para o bocejo).

Como se não bastasse a falta de originalidade e inspiração do roteiro, 3% extrapola as barreiras do tolerável em péssimas interpretações (como de Bianca Comparato e Michel Gomes, que não passariam nem em um teste para Malhação), figurinos risíveis (no que talvez seja a decisão de vestimenta mais equivocada da história), personagens caricatos e clichês, cenários e efeitos incrivelmente falsos e um texto de uma vergonha alheia sem limites. Frases prontas são repetidas roboticamente por atores sem o menor dom pra coisa (como Bianca Comparato) ou por  atores excelentes transformados em piadas por um produto ruim (como Zezé Mota ou o ótimo João Miguel que deveria ser indenizado depois dessa furada).

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Mas onde está o problema real? É impossível fazer um produto de qualidade no Brasil? Claro que não! Alice, da HBO Brasil e Justiça da Rede Globo (por exemplo) já provaram que sim, uma série de qualidade PODE ser feita por aqui. O verdadeiro motivo de 3% ser tão ruim então deve ser a preguiça. A preguiça que fez com que os criadores caíssem no lugar comum e amontoassem um clichê atrás do outro até ficar insuportável.

Se 3% tem algum mérito real, é o de criar novos patamares para o que é ruim. Agora, ao invés de dizermos que algo é “pior que um filme do Adam Sandler”, podemos dizer que é “ainda pior que 3%”, e que é, no fim das contas, decepcionante. Passa longa de argumentações inteligentes sobre futuro e tecnologia como os de Black Mirror. Se você não se importar em assistir uma produção com atores ruins, texto fraco, uma ideia mastigada e vomitada diversas vezes e figurinos dignos de escola de samba, você pode gostar. Mas é mais fácil fazer parte das pessoas que acabarão vendo apenas 3% da produção mesmo.

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2 comentários sobre “3% – Primeiras impressões

  1. João Alves disse:

    Caro Flávio, sei que vai parecer estranho, mas acabei publicando meu comentário no blog errado. Estava procurando algumas análises sobre a séria 3%, até encontrar um texto no qual escrevi o comentário acima. Mas acabei me atrapalhando, e o escrevi em seu blog. Dessa forma, se puder deleta-lo, ficaria imensamente agradecido! Obrigado.

  2. João Alves disse:

    Caro Flávio, sei que vai parecer estranho, mas acabei publicando meu comentário no blog errado. Estava procurando algumas análises sobre a séria 3%, até encontrar um texto no qual escrevi o comentário acima. Mas acabei me atrapalhando, e o escrevi em seu blog. Dessa forma, se puder deleta-lo, ficaria imensamente agradecido! Abraço.

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