#PausaEntrevista – Conversamos com Matheus VK sobre música, diversidade e política

Que Matheus VK é um dos maiores nomes da recente música brasileira ninguém discute. Sua ‘Malemolência’ está na nossa lista das melhores músicas de 2017 e na nossa playlist atualizada das melhores músicas deste século.

Matheus é psicólogo, heterossexual e não tem medo de subir em um trio elétrico para cantar coberto de purpurina. Seu último single, ‘Soldadim’ é um lindo tapa na cara do preconceito, um hino no momento político conturbado que estamos passando.

Conversamos com Matheus por email sobre carreira musical, preconceito, diversidade e, claro, a violência motivada pelo ódio político. E ainda fizemos uma descoberta: além de um artista incrível, Matheus VK é uma pessoa SENSACIONAL, que nos deixou com lágrimas nos olhos (literalmente) só de ler suas respostas.

Leia e assista outras entrevistas do Pausa Dramática

É de mais gente como Matheus VK que precisamos no mundo.

Leia abaixo nossa entrevista e veja (e ouça) o clipe de ‘Soldadim’, que ainda conta com a participação de Silvero Pereira.

Pausa Dramática: Você era psicólogo e também cantava no carnaval carioca, como foi a transição do consultório pros blocos? Como trabalhava com as duas funções juntas?

Matheus VK: Praticamente minha vida toda eu fiz musica e alguma outra coisa ao mesmo tempo. No inicio era escola e musica, depois faculdade e musica, e durante 7 anos trabalhei como psicólogo e musico ao mesmo tempo. Nunca foi um problema conciliar, todos os meu pacientes sabiam que eu também era músico e muitas vezes a musica era um recurso terapêutico. Tive que escolher quando comecei a viajar muito para tocar. O vinculo terapêutico tem muito a ver com continuidade e segurança, quando essa continuidade começou a ser prejudicada pelas minhas ausências eu fiz a escolha. fiquei com a música.

É bastante perceptível a influência de Ney Matogrosso em seu trabalho, principalmente no visual, quem são suas outras inspirações?

Eu sou musicalmente formado pela nossa MPB clássica. Caetano, Milton, Gil, Djavan. Sempre fui o amigo que tocava violão nas festas sabe?  Tinha gente que me chamava de Jukebox, Ipod etc etc ahaha.  O Ney para mim é um dos maiores artistas dessa MPB porque ele incluiu a questão visual e performática nas suas apresentações, alem da qualidade musical e mensagem forte nas letras e atitudes, é claro. Como sempre adorei o recurso do figurino e maquiagem, eu inclui isso para o meu trabalho. Acho que potencializa muito a mensagem.

Você não tem medo de se maquiar, usar roupas extravagantes e se cobrir de purpurina. Já sentiu algum tipo de reação por ser heterossexual (um “preconceito hetero”) tendo este o comportamento mais aberto?

Eu recebo todo tipo de reação. Um olhar torto de alguém mais careta e conservador que acha muito estranho como eu posso ser hétero, casado, com uma filha e ao mesmo tempo rebolar, me maquiar etc. 
Recebo também muitas cantadas de homens gays que acham que sou gay, de mulheres que acham super sexy um homem feminino. 
No final das contas, acho tudo muito valioso, quer dizer que estou tocando as pessoas, mexendo com o emocional de quem me vê e me ouve. 
Acho, inclusive, que uma das grandes doenças do mundo é esse machismo institucionalizado que vivemos. Todos, somos vítimas desse padrão opressor que limita os homens e violenta as mulheres. Um homem que não se permite sentir, chorar, se sensibilizar, não é capaz de sentir empatia, não se coloca no lugar do outro. isso é o mal da humanidade.

Você disse que lançou “Pélvis” porque sentia que os homens eram travados por causa do machismo. Você vê este comportamento mudando, esta atitude machista diminuindo, em todos os sentidos?

Eu acho que o machismo está sendo debatido com mais profundidade como nunca tinha visto antes. Mas acho que as mudanças ainda estão no inicio. No processo social da descontração do machismo ainda estamos na fase de cair na real, e trazer à consciência todos os males que o machismo causa não só contra as mulheres mas também a nós homens. Tenho muita esperança que é uma questão de tempo para que esse assunto deixe de ser um debate intelectual e passe a ser transformado na prática.
A música brasileira passa por uma fase de diversidade e renovação, com muita gente nova surgindo e novos sons estourando. Com quais desses novos nomes você gostaria de gravar?
Olha, tem muita gente boa! Recentemente fui ao show do Àttooxáá  que é uma banda baiana e vi muita força no som deles! Tem uma relação da musica com o corpo muito forte, virei fã. 
Tenho vontade também de gravar alguma coisa com meus amigos do 5 a Seco, acho que eles pegaram o bastão da MPB e levaram pra um lugar contemporâneo muito lindo. 

Soldadim é claramente uma música política. Como você vê o momento político do Brasil? Acha que a música é uma boa “arma” na luta pelos direitos?

Vejo o momento do Brasil com péssimos olhos. A cegueira, a surdez a intolerância, a falta de dialogo transformaram nosso pais em um lugar reativo, exclusivo, desconectado de emoções e sentimentos agregadores. Tá difícil. Mas reconheço que estou em um momento especialmente desacreditado, e que vai passar, as coisas tendem a se ajustar com o tempo. Com relação à arte, eu sigo acreditando que é, uma das melhores armas que existem para levar informação, reflexão e transformação às pessoas. 
Soldadim, é uma musica que fiz há 1 ano e meio atrás, eu já venho sentindo um ambiente de violência já faz tempo. Mas acho que o momento da musica é agora e acredito que ela possa fazer eco em muita gente.

Como você vê o momento da indústria fonográfica atual, com streaming e o acesso às músicas e à produção musical se tornando cada dia mais fácil?

Olha, acho que a facilidade na produção é equivalente à dificuldade da divulgação da musica. A oferta é enorme e para ser ouvido é necessária uma comunicação igual ou até melhor que a própria obra. Eu não sou uma pessoa que questiona o sistema, e sim que tenta entender e me adaptar, e é isso que estou fazendo. 

Vivemos em um momento em que a liberdade conseguida com tanta luta pelos movimentos LGBT parece estar em risco. Soldadim pode ajudar a levantar a bandeira de direitos iguais nesta luta. Você acredita que a música possa ajudar e conscientizar as pessoas? Acha que nomes como o de Silvero Pereira (bastante presente na mídia) possam auxiliar?

Soldadim fala da liberdade de sermos quem somos e da descontração do machismo. Eu sou quase um militante da causa LGBTQ+ exatamente por valorizar muito a liberdade e a ruptura dos padrões aprisionados. Eu como psicólogo vivi no consultório os estragos que pode se causar reprimindo algo essencial para alguém. O Silvero é um dos grandes artistas que conheço em atividade. Integro, criativo, sério, focado e talentoso. Eu poderia ficar elogiando ele aqui sem parar porque acho que a forma que ele conduz a vida dele tem muita verdade e liberdade, por isso ele toca tanto as pessoas, e acaba sendo um exemplo dentro da luta a favor dos movimentos LGBTQ+, e o fato dele ser conhecido da mais força ainda ao discurso dele. 
  

 

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