Qual o problema das novas gerações em conhecer sua própria História?

No último domingo o canal GNT transmitiu ao vivo a Parada do Orgulho LGBT de São Paulo. No estúdio o apresentador Caio Braz conversava com duas youtubers do canal Tá Entendida sobre a importância da parada deste ano, que celebrava os 50 anos da Revolta de Stonewall, talvez o maior marco da história do movimento LGBT. Caio então perguntou às duas, lésbicas, quem elas escolheriam para Rainha desta parada tão importante. Ambas citaram outras youtubers. 

Não choca que duas millennials não conheçam História a ponto de não saber citar ninguém que não seja de sua geração ou de seu meio (afinal todos sabemos que millennials ignoram o que aconteceu antes deles nascerem). O que choca é que as duas não conheçam a história do que representam, do que se dispõem a falar a ponto de não saber citar ninguém que não seja de sua geração ou de seu meio. 

Hipoteticamente falando, poderiam ter citado: Rogéria, Jorge Lafond, Roberta Close, Hebe, Elke Maravilha. Até mesmo Nanny People, Ana Carolina, Daniela Mercury. Mas não. 

TALES OF THE CITY (As Crônicas de São Francisco)

Novamente me espanto com a posição de LGBTs mais novos que parecem fazer questão de não conhecer sua própria história. Nem estou falando de saber que Madonna, Cher, Cyndi Lauper vieram antes de Ariana Grande e Camila Cabello. Estou falando de saber que muita gente morreu para que eles hoje gritem seu Born This Way e usem as cores da bandeira do arco-íris nas roupas. Estou falando de saber que os gays nos anos 80 morriam nas ruas sem que nada fosse feito a respeito. Seja por conta da AIDS ou da violência que sofriam. Estou falando de saber que tem gente que até hoje vive um casamento hetero de mentira porque nunca pode se assumir e quando pode já era tarde demais pra mudar. 

Produções como Pose, Crônicas de São Francisco, Will & Grace expõem muito bem essa batalha de gerações. Em um determinado episódio de Crônicas de São Francisco da Netflix um personagem gay de seus 50 anos se revolta ao ser repreendido por um outro, gay de 28 anos, por conta de um termo que usou:

_ Qualquer suposto privilégio de que, por acaso, desfrutamos agora foi conquistado. Com isso, quero dizer, a unhas e dentes, de uma sociedade que não se importava com nossa vida e não se importou quando nossos amigos começaram a morrer. Aos 28 anos, não ia a jantares. Ia a enterros. Três ou quatro por semana. Todos íamos.

_ Eu entendo isso. É sério.

_ É mesmo? Por quê? Porque viu Angels in America? Que se dane! Você não faz ideia. Este mundo onde pode viver com seus locais seguros e interseccionalidade…

-Casamento gay.

-Transar sem camisinha.

_ Tudo isso. Esse direito que vocês têm agora à dignidade e visibilidade como gay… Sabe de onde veio isso? Quem construiu esse mundo? Sabe o quanto custou esse progresso? Não, claro que não. Sua geração jamais conseguiria compreender.

A cena choca pela crueza e pelo realismo. Não cabe aqui questionar a motivação deste discurso (totalmente errada), mas sua sinceridade e veracidade absurda e por resumir o pensamento atual dos mais jovens. A nova geração se acha no direito de julgar os mais velhos, chamar de bichas velhas e ridicularizar. Se ao menos os millennials tivessem assistido Angels in America. Ou When We Rise. Ou The Normal Heart. Poderiam ao menos começar a compreender que antes deles viverem Com Amor Simon ou Glee precisaram existir pessoas que viveram Filadélfia ou Meninos Não Choram

Gilbert Baker
Marsha P. Johnson

A vida pode ser sim esta linda bandeira do arco-íris de 6 cores nas costas num mundo onde só youtubers importam. Mas é pedir muito querer que os jovens saibam que ela já teve 8 cores, por que ela foi criada e em cima do sangue de quem? Saber quem foi Gilbert Baker ou Marsha P. Johnson? Acho que não. 

Um comentário

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s