Carta-resposta ao artigo ‘Professores não querem trabalhar. E os alunos, como ficam?’

‘Professores não querem trabalhar. E os alunos, como ficam?’, artigo publicado no site da Gazeta do Povo em 14/09/2020

UMA RESPOSTA NEM TÃO SIMPLES PARA UMA PERGUNTA NEM TÃO INTELIGENTE

* Por Wemerson Damasio

No dia 14 de setembro de 2020, fomos agraciados por um artigo de opinião publicado na Gazeta do Povo. O autor, jornalista de renome e com um currículo que carrega algumas polêmicas, homofobia, inclusive, resolveu dar o seu pitaco, mais uma vez, onde não é chamado e muito menos onde não possui lugar de voz.

Mas, em todo caso, o que eu gosto nos artigos de opinião é que qualquer um pode opinar, se tiver contatos e conseguir uma publicação em um jornal de alcance estadual, quiçá, nacional, melhor ainda. E quando digo qualquer um não me refiro àqueles que, com muito bom senso ou não, opinam sobre questões que não lhes cabem. Refiro-me àqueles que de uma forma ou de outra aproveitam-se da “fama” para difamar qualquer ser humano que seja.

Ao fazer a leitura do então artigo, fiquei pensando, refletindo, sentindo cada palavra. Afinal, eu sou professor com muito orgulho, e quando digo sou é porque eu sou e não somente estou na função. Pois, aquelas e aqueles que exercem a mesma função da minha, sabem que a profissão não é estar, é ser. E somos, e somos muitas e muitos, espalhados por esse país que, infelizmente, vê a escola como efêmera. Algumas pessoas se esquecem que ela é um local que deixará marcas e conhecimentos para toda uma vida. 

As opiniões infundadas do texto fizeram-me perceber que não se trata de “como os alunos ficam”, pois não houve sequer uma menção à aprendizagem. Em uma tentativa, frustrada, por sinal, o autor tencionou demonstrar uma preocupação com a desigualdade social que as escolas fechadas proporcionariam. No entanto, a preocupação não era com “todos” os estudantes e sim com aqueles das escolas privadas, possivelmente por ser a única realidade a qual o autor está habituado.

Pois bem, como prometido, há uma resposta nem tão simples para uma pergunta nem tão inteligente. Afinal, de acordo com o artigo, quem quer manter as escolas fechadas são os professores. Sim, os mesmos que estão sobrecarregados com lives, meetings, slides, atividades entregues aleatoriamente, inúmeros grupos de conversas (porque, sim, é um por turma, um por turno, um por escola, um para direção, um para o pedagógico, um por disciplina…) e as mensagens particulares de pais e estudantes. Um dia, alguém me falou que o problema do trabalho remoto é que você não tem mais horário, quando você se dá conta seus atendimentos ultrapassam as horas de seu trabalho. É urgente! O aluno questionou. A aluna não entendeu. E não importa a hora, a gente responde e com muito mais cuidado, pois, temos consciência de que o momento é novo, é sensível.

No momento em que o articulista afirma que os professores não querem mais dar aulas, percebemos em seu discurso que ele nunca entendeu sobre escola, sobre aulas (admira-me aventurar-se a escrever sobre), porque uma aula não se limita a quadro, a giz, a livros, a slides… uma aula de verdade é ministrada em qualquer lugar, em qualquer circunstância. As metodologias até podem variar, mas, o ensino é envolvente, é construído paliativamente.

Eu não sou tão ácido, teve uma coisa do artigo que eu gostei. Segundo ele, faz dois meses que a incidência da transmissão do vírus e das mortes decorrentes dele diminuíram. A minha pergunta: será que as escolas fechadas contribuíram e estão contribuindo para isso? Pergunta que ele não saberá responder. Afinal, é perceptível que de escola ele nada entende.

Enfim, respondendo a tão esperada pergunta “E os alunos, como ficam?”… ficam vivos, pois do conhecimento nós daremos conta depois, pois somos incansáveis, mas das vidas, esse poder a gente ainda não possui.

Espero, que ele, assim como muitos, continuem preocupados com a educação. Desejo que assim que tudo passar, a escola não seja vista somente como um local de passagem, mas de aprendizagem para a vida e que todos nós, educadores ou não, nos preocupemos tanto com uma educação de qualidade quanto estamos preocupados agora.

LEIA MAIS: Carta aberta de um professor em resposta à Ministra Luislinda Valois

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* Wemerson Damasio é professor e mestre das redes públicas municipal de Curitiba e estadual do Paraná.

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