Carta aberta de um professor em resposta à Ministra Luislinda Valois

Sra. Ministra de Direitos Humanos,

Após sua declaração de repercussão extraordinária nesta semana, compadeci-me de sua causa. A senhora tem total razão ao declarar que o trabalho não remunerado possui caráter escravo, no entanto, segundo as suas próprias alegações, existe uma remuneração de quase R$ 3.000,00 por seus serviços como Ministra de Direitos Humanos, o que, ao meu ver, já descaracteriza o trabalho escravo. Não entrarei aqui no mérito de seus proventos da aposentadoria como desembargadora de pouco mais de R$ 30 mil reais, uma vez que, acredito eu, a senhora a tenha merecido por anos de dedicação ao trabalho, além do que, no momento em que o país passa com relação à previdência, melhor nem tocar nesse assunto. Portanto, voltemos à questão do trabalho escravo não-escravo.

Diferente de muitos na mídia, eu compreendi sua declaração, não se trata de receber R$ 61 mil mas, sim, de acúmulo de ganhos, qual seja, aposentadoria somada ao trabalho como Ministra, quase como uma equiparação salarial nos dizeres do Direito Trabalhista (DT).

Compadeço-me de sua declaração porque também trabalho em mais de um local. Sou professor das redes públicas municipal e estadual, atuo na capital do Paraná, sendo assim, entende-se que já trabalho em mais de um local. Assim como a senhora declarou, a fim de se defender de sua infeliz comparação, alegando que o valor recebido não supre suas necessidades de vestimentas eu também o farei, mas com outro olhar: o da REALIDADE.

Como mencionado, sou professor das redes municipal e estadual, isso faz com que eu acorde todos os dias às 5h30 e trabalhe até as 22h40, pelo meu trabalho, em três períodos, eu recebo o equivalente ao dobro do seu como Ministra, que segundo a sua afirmação é de aproximadamente R$ 3.000,00. Do dinheiro recebido eu tenho que reservar: o que eu gasto de locomoção de minha casa até o trabalho, a de uma escola até a outra, o almoço, o lanche do período entre tarde e noite, o café que tomo nas escolas. Não entrarei na questão dos valores que depreendo todos os meses com: fotocópias, folhas de sulfite, colas, canetas ou quaisquer outros materiais que consumo com vistas a dinamizar e facilitar o aprendizado de meus alunos, pois como Ministra, creio, que a senhora sabe que isso acontece. O resultado dessa conta, com gastos pessoais, é zero ou negativo, mas jamais disse que se trata de um trabalho escravo, afinal eu escolhi a profissão e me orgulho disso. Mas… de acordo com sua defesa na mídia foi só uma comparação, por isso vamos nos comparar, e quando digo VAMOS não se trata de mim e a senhora, se trata dos professores brasileiros e a senhora.

Muitos de nós recebem um salário indigno (disso a senhora entende) para exercerem as suas profissões, que compreende em uma sala de aula com mais de 30 alunos por turma, 30 vidas a cada aula, o que, no final do dia e da noite gira em torno de 450 vidas. Desses muitos, alguns estão sem receber seus salários ou os mesmos estão atrasados. Muitos de meus colegas de profissão correm risco de vida todos os dias (eu mesmo já tive uma arma na minha cabeça dentro da escola, neste ano). Pergunto-lhe agora, baseada em que a senhora alega o seu trabalho ser escravo? Se assim o é, como a senhora me explica o trabalho de tantos outros profissionais brasileiros, cujo salário não chega a mil reais?

Não me venha com a alegação de que o seu trabalho como Ministra de Direitos Humanos exige responsabilidade, pois ao que tudo indica, tu não sabes a diferença entre ganhar pouco e nada ganhar. Direitos Humanos é o que nossos professores fazem todos os dias, cuidando para que a nova geração saiba se respeitar e valorizar o que é “diferente” e é por conta desses profissionais que hoje a população é capaz de dizer que sua declaração e comparação não possui fundamento, não é porque não veem o que a senhora faz é por verem o que a senhora não faz: RESPEITAR OS DIREITOS HUMANOS DOS BRASILEIROS.

Lembra da comparação? Então, ela não existe, porque não há como se comparar o trabalho de professores que levantam cedo, cuidam e ensinam centenas de pessoas por dia, correm riscos de vida e por esse trabalho pouco recebem, com o de uma Ministra que nada faz, recebe mensalmente o equivalente ao de um professor por ano e muito mais do que muitos trabalhadores brasileiros.

Wemerson Damasio*

PS.: me mande um whats pra gente conversar.

 

Abraços.

*Wemerson Damasio é professor especialista, mestrando do ProfLetras-UEM e co-autor do livro infanto-juvenil As Crônicas de Miramar.

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