Resenha do blog: Anna Karenina

Você com certeza já ouviu a expressão “teatro filmado”. Usada geralmente para definir um estilo de filmagem ruim, é dita quando algum filme inspirado em peças é malfeito e sem ritmo, sem cenários eficientes e edição precária. Pois bem, após Anna Karenina a expressão ganha outra definição. Uma definição de excelência e magnitude jamais imaginadas.
Filmado inteiramente dentro de um teatro construído em Londres, a adaptação cinematográfica da obra do russo Leon Tolstoi é impressionante visualmente. A não ser quando é a intenção, não percebemos ou esquecemos que toda a ação se passa em um único set de filmagens. Algumas passagens de cena mostram, propositalmente, trocas de cenários e figurinos, enquanto outras nos levam a duvidar se não é uma cena externa de neve ou plantações. Enquanto palco, plateia e coxia são transformados em quartos, restaurantes, salões de baile e ruas, são ocupados por atores, centenas de figurantes e até cavalos, somos levados pela imaginação por uma história contada de forma inédita e desconcertante.
Joe Wright, o diretor (de Orgulho e Preconceito e Desejo e Reparação) chegou a confessar que esta não era sua intenção inicial, mas devido ao orçamento curto que não lhe permitiria filmar na Rússia e para evitar semelhanças com seus filmes anteriores, também estrelados por Keira Kneightley, optou por “encená-lo” dentro de um teatro. A ideia lhe deu liberdades conceituais espetaculares e transformou o que seria um filme relativamente comum numa obra única.
No entanto se a genialidade do diretor praticamente cria um novo gênero, a banalidade da maioria dos atores o transforma num filme visualmente belo porém raso de sentimentos. O drama da esposa de militar da Rússia imperial, Anna Karenina (Kneightley, sempre eficiente) que trai seu marido (Jude Law, ótimo e no tom certo) com um aspirante, Conde Vronsky (Aaron Johnson, de Kick Ass, simplesmente irreconhecível) é levado às ultimas consequências de remorso e amor, como convém a um bom romance russo, mas acaba por não provocar muitas emoções.
Indicado a quatro Oscars (fotografia, direção de arte, trilha sonora e figurino), saiu da festa somente com o prêmio pelos trajes suntuosos, mesmo que antes de divulgadas as indicações fosse tido como um dos grandes concorrentes. Se Wright acertou com Desejo e Reparação, filme magnífico também sobre amores, remorso e guerra, dessa vez algo lhe faltou no tom. Talvez o peso da responsabilidade de adaptar uma obra já tão exposta no cinema, talvez o peso de ser um romance russo (sabidamente difícil de deglutir), talvez na má escolha de seus coadjuvantes… o fato é que o filme parece mais belo que bom, como uma lindíssima torta, confeitada com frutas e caldas mas que ao comermos não tem lá muito gosto. Mas vale a pena pela genialidade e inventividade do diretor. E como vale!

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