Resenha do site – Sr. Holmes

sr holmesÉ assim que funciona. Alguns filmes, por melhores que sejam, não têm hype nenhum e muitas vezes, a não ser por um detalhe sequer chegam a ser conhecidos. Foi assim com A Vida Secreta de Walter Mitty, a excepcional mistura de drama com comédia de Ben Stiller. Foi assim com Bernie – Quase um Anjo, a comédia de humor negro e refinado com Jack Black e Shirley MacLaine. Outro exemplo: Um Golpe Perfeito, com Colin Firth e Cameron Diaz, que apesar do nome genérico trazia uma trama ágil e inteligente. Filmes pequenos que não fossem por seus atores provavelmente nem teriam sido produzidos. E é assim com Sr. Holmes.

O novo longa do diretor Bill Condon (que antes de estragar o currículo com as duas partes finais da saga Crepúsculo já tinha dirigido obras perfeitas como Deuses e Monstros, Dreamgirls Kinsey) é, antes de mais nada, um filme pequeno. Daqueles que, quando íamos às locadoras criavam pó na seção de “catálogo” e só levávamos pra casa quando não tínhamos outras opções. E, como acontecia frequentemente, é um daqueles filmes que, depois que víamos, tínhamos a sensação de ter visto uma pequena obra prima.

Adaptado do romance Sr. Holmes, de Mitch Cullin, o longa conta a história de um velho Sherlock Holmes, aposentado com 93 anos em 1947. O maior detetive da história é agora um velhinho que sofre com o peso da idade e o início de perda de memória enquanto cuida de suas abelhas em uma casa afastada nos campos da Inglaterra. Ali ele tem como companhia apenas sua governanta Mrs. Munro, viúva de guerra, e o filho desta, o pequeno Roger. É neste universo que Holmes tentará se lembrar de um caso do passado, ocorrido há mais de 30 anos enquanto tenta achar uma cura para sua crescente demência e decadência física e mental.

Se você está esperando uma aventura clássica do detetive, como em seus bons livros, poderá se decepcionar. Se se lembrou dos filmes estrelados por Robert Downey Jr, pode esquecer. Há um mistério, uma investigação, mas ela é o que menos importa aqui, relegada ao segundo e talvez terceiro plano. Ação? Nenhuma. Mais um drama que um suspense, Sr. Holmes trata na verdade das relações daquele homem que apesar de admirado nunca foi uma pessoa exatamente sociável. Tratando mal a todos a sua volta sem muita paciência com quem não considera tão inteligente quanto ele, Holmes esnoba e esbanja sua sabedoria, mesmo que aos 93 anos isso seja mais uma máscara que um fato.

É no pequeno Roger, no entanto, que o detetive irá encontrar sua nova mente brilhante. É o garoto quem ajuda o detetive a relembrar fatos, a explorar novidades e a, enfim, tornar-se uma pessoa melhor. A relação entre os três, um sutil relacionamento patrão-empregada com rompantes de intimidade constrangida e inocência infantil de Roger, as metáforas com relação ás abelhas (e sua importância pra história), o caso do passado, a busca pela cura. Tudo irá montar uma história simples e ainda assim delicada e encantadora. E extremamente bem contada.

Sir Ian McKellen no papel de Holmes está impecável. Nada daquelas interpretações “viscerais”, que parecem encarnar um personagem. Mas uma atuação direta, dura e perfeita de um ator que tem total domínio sobre o que faz. Seu Holmes decrépito consegue ser um personagem mais atraente que muito torso musculoso por aí. Com uma profundidade que só um ator deste calibre e um personagem dessa magnitude pode trazer, McKellen se supera com gestos, bocas e olhares de um senhor de 93 anos (o ator tem na verdade 76) com medo da morte iminente. Sua governanta, interpretada por Laura Linney não deixa por menos. A atriz contém gestos e expressões de uma mulher que já sofreu muito na vida e está a ponto de explodir a qualquer momento. Sua expressão realmente deixa ver que, com a menor faísca, tudo o que ela vem guardando durante anos pode vir à tona. Seu único porto seguro é seu filho e ela fará de tudo para garantir seu futuro e o dele. Mesmo que seja desafiar aquele velho arrogante que já foi alguém um dia mas que no momento é dependente dela e, pela sua opinião, deveria ir para um asilo.

Em suma. Sr. Holmes é um filme que não irá fazer barulho algum. Que não vai arrastar multidões para os cinemas. Nem a presença de dois atores que juntos somam cinco indicações ao Oscar, nem um diretor com uma estatueta no currículo farão com que o grande público o descubra. Porém, estamos falando de uma das melhores obras do ano. Um filme simples, delicado, de interpretações poderosas e arrasadoras, de direção firme e tons claros. Um filme para ser visto e revisto, para figurar nos currículos de McKellen, Linney e Condon como um de seus melhores trabalhos. E que, em outros tempos, descobriríamos numa prateleira escondida da locadora e nos apaixonaríamos pensando “como não vi esse filme antes?”.

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