#comentáriosliterários – A Garota no Trem, de Paula Hawkins

A pior parte de se ver um filme ou ler um livro que é “campeão de público” é a expectativa. Você meio que se sente na obrigação de gostar porque o filme teve não sei quantas milhões de pessoas de público ou porque o livro vendeu não sei quantas milhões de cópias. Você fica com medo de se decepcionar. E é o que geralmente acontece.

Pelo menos é o que acontece com A Garota no Trem, de Paula Hawkins. O livro que já vendeu mais de três milhões de cópias nos Estados Unidos desde agosto e se tornou bestseller já garantiu sua adaptação pros cinemas, mas é decepcionante da primeira à última página.

A tal garota no trem é Rachel, uma mulher de cerca de trinta anos abandonada pelo marido e sem emprego. Rachel entrou numa espiral de depressão e alcoolismo que lhe custou o casamento, a casa e causou sua demissão. Hoje mora com uma amiga e mente que ainda trabalha, tomando todos os dias o mesmo trem para Londres no mesmo horário. É deste trem que Rachel vê um casal que acha modelo, admira os dois todos os dias da janela na ida e na volta “para o trabalho”, vivendo há algumas casas de onde seu ex-marido vive com a atual esposa e a filha.

É esta a vida interessantíssima de Rachel: viver a vida dos outros pela janela do trem. A vida deste casal que ela sequer conhece mas fantasia e a vida do ex-marido, a quem volta e meia atormenta com telefonemas.

Ela não é uma protagonista cativante. Sua vida em si não nos interessa nem um pouco. Acorda, finge que vai trabalhar, bebe no trem, olha da janela, bebe de novo, liga pro ex-marido. Nada interessante. Pra piorar a situação, Rachel é fraca. Diz para si mesma todo dia que vai mudar, contar a verdade para a amiga sobre o emprego, parar de beber e de telefonar. Mas no dia seguinte faz tudo de novo. Essa fraqueza acaba irritando o leitor.

Mas o livro se divide entre três protagonistas: além de Rachel, há Anna. A atual mulher de seu ex, que também é uma pessoa sem muita força de vontade. Foi morar na mesma casa que ele vivia com Rachel porque ele insistiu. Deixou de trabalhar porque ele insistiu. Se conformou com esta vida de dona de casa (mesmo não gostando) porque o marido insistiu. Tolera as frequentes ligações da ex e até ameaças físicas porque ele diz que vai dar um jeito. Que gente mais sem força de vontade!

Enquanto as duas não acordam pra vida, Megan vive uma outra vida, na cabeça de Rachel. Olhando pelo trem, a segunda acha que a vida dela é perfeita e, na medida do possível é. Megan passa os dias esperando pelo marido, toma um drink com ele na varanda vendo os trens passarem, entra, fazem sexo, e vive feliz. Ou assim parece.

Claro que um grande acontecimento vai jogar Rachel de vez na vida dessa desconhecida que, coincidentemente é vizinha de seu ex-marido. Claro que Rachel, que já não tem vida própria, vai mergulhar ainda mais na vida dessa estranha e fazer desta a sua vida.

A falta de rumo da personagem principal, a falta de profundidade dos personagens masculinos e o “grande mistério” resolvido no final são tão irritantes que em determinado momento você não quer que o livro acabe porque você quer saber o que aconteceu, mas porque não aguenta mais aquelas mulheres. Se pensado assim, A Garota no Trem está longe de ser um livro bom, está muito mais para mais um genérico de 50 Tons de Cinza (sem as partes picantes).

Lembra bastante roteiros de filmes como Dormindo com o Inimigo, Atração Fatal Instinto Selvagem, e a impressão é que era justamente essa a ideia. Porém sem a tensão destes filmes e com muito mais melodrama. E pensar que na capa há uma frase comparando com Garota Exemplar, que é excelente. Nem em sonho.

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