O que é ser macho? Ou: o dia em que fui alvo de haters e preconceituosos na internet

Um assunto que vem sendo bastante discutido ultimamente é o machismo (e por consequência o feminismo). O que é “ser macho”, afinal?

Quando criança, aprendi várias definições. Assim como ouvia que “tatuagem era coisa de bandido”, ouvia que “chorar não era coisa de macho”, por exemplo. Ouvia de mulheres da família que homem não precisava ajudar a lavar a louça, que era pra deixar minha irmã fazer isso. Aprendi que homem que era homem pulava muro, subia em árvore, andava de carrinho de rolimã e só brincava com meninos, mas sem muito contato, a não ser que fosse pra brincar de lutinha. Que meu lema de vida deveria ser “se viu uma bola, corra e saia chutando”. Brinquedos de homem eram carrinhos e bonecos de soldados. Já eu nunca subi em árvore ou em muro e nunca andei de carrinho de rolimã por medo de me machucar. E ODEIO futebol. Isso me fez “menos macho”? Talvez, mas conheço homens gays que fizeram e fazem tudo isso, assim como héteros que não fazem e (pasme) não gostam de futebol. O que uma coisa interferiu na outra?

Aprendi que pra ser macho, caso provocado ou caso apanhasse na escola, deveria revidar. Afinal, macho não levava desaforo pra casa. Hoje com 35 anos nunca briguei.

Pois bem, tudo isso deve afinal ter interferido na minha macheza, já que sou gay. E muito bem resolvido, obrigado. Onde acabo novamente questionando: o que é ser macho? É aprender com os pais e inclusive com mulheres que é a mesma coisa que ser “machista”? A macheza, aliada à masculinidade, serve somente para impor uma posição de poder do homem sobre a mulher, neste contexto mais frágil, mais delicada (e menos capaz). Obviamente não partilho desta opinião.

Ser macho é beber cerveja e arrotar? Aliás, é achar graça em propaganda de cerveja que objetifica mulher e conversa com as bolas? É gostar de carro e UFC? É ter amante? É ser peludo? Aliás, ser tudo isso impede alguém de ser gay?

Mas me pergunto: macheza e masculinidade têm a ver com orientação sexual? Um homem gay é, por consequência, menos macho?

Não, não acredito nisso. Conheço homens gays mais “machos” (no sentido social da palavra) do que muitos héteros. “Ser macho” significando ser honesto, adulto, responsável e competente no que faz, por exemplo.

Mas eis que eu, muito avant-garde (mas nem tanto), resolvi que queria usar saias masculinas, depois de ver imagens em desfiles internacionais. Como não encontrei pra vender (ao menos não a um preço justo), fui lá ser gauche e me meti a fazer e lancei a Narciso, a minha marca de saias exclusivamente para homens. Povo adorando, mídia colaborando e pum! Virei matéria no G1.

Fiquei super feliz, empolgado, animado. Amigos me dando parabéns e tudo o mais, até que me deparo com uma repercussão que eu não esperava. Claro que já tinha visto muita ignorância na internet, motivo pelo qual não leio comentários em posts e notícias. Mas desta vez EU era a notícia. Fui ler (caso queira ler, vá por sua conta e risco).

Um festival de ofensas gratuitas se abriu diante dos meus olhos. De comentários relativos à minha masculinidade e macheza (pois olhe) à piadinhas questionando minha sexualidade (como se eu a escondesse). Coisas do nível “saia é coisa de mulher” ou “vai usar calcinha também” e outras de níveis muito mais baixos. Claro que na notícia também existem comentários nada majestosos.

Hoje já se sabe que o preconceito está diretamente ligado a baixo QI e pouca inteligência. Segundo um estudo, trata-se de um ciclo vicioso: crianças com baixo QI se tornam adultos preconceituosos, e estes adultos com pouca inteligência ‘orbitam’ em torno de ideologias socialmente conservadoras, resistentes à mudança e que, por sua vez, geram o preconceito.

Fiquei sabendo que na mesma semana o programa Amor & Sexo questionou justamente esse conceito de “ser macho”, o que acabou se aliando à minha notícia e dando margem pra muitos outros comentários, como este:

O mais engraçado é perceber que a ignorância ali demonstrada era maior que puro preconceito. MULHERES falando que saia era coisa de mulher e, obviamente, se referindo à minha sexualidade. Mulheres, que com certeza hoje usam calças, até algumas décadas atrás ROUPA DE HOMEM. Isso interfere na sexualidade delas?

O melhor/pior comentário de todos pra mim foi o de um usuário que, com a imagem do lutador Colosus no seu perfil e em diversas fotos, dizia que eu, ali modesto de saia, era prejudicial à masculinidade (dele ou mundial eu não entendi). Perceba, caro leitor: Colosus, assim como todos os lutadores romanos, dormia com outros homens e… USAVA SAIA!

Claro que no meio de tanta barbaridade, salvam-se algumas mente iluminadas:

Aliás, TODOS os homens usavam saia até a Revolução Francesa no século XVIII. Não sei como a humanidade conseguiu chegar a 7 bilhões de pessoas se os homens eram todos gays… aliás, como tem tanta gente na Escócia ou Irlanda se os homens lá são todos gays também (já que usam kilt)?

Como sou mais adepto do “falem bem ou falem mal, mas falem de mim”, me incomodei, claro, mas ao mesmo tempo achei ótima a repercussão. Polêmica dá audiência, afinal.

Toda desconstrução de padrão sofre. Quando o primeiro homem “moderno (?)” quis usar rabo de cavalo deve ter sido assim. Quando as primeiras mulheres usaram calça deve ter sido assim. Quando as mulheres ganharam direito a voto deve ter sido assim. Quando os negros começaram a ser tratados como iguais deve ter sido assim. Não sou eu quem vai mudar a cabeça de mentes ignorantes. Mas espero que seja eu quem vai ajudar a derrubar estereótipos e preconceitos no que diz respeito, pelo menos, à homens de saia.

A, e pra quem quiser saber mais da minha marca, é só visitar a pág no face ou seguir lá no insta 😉

machos

Ué?

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2 comentários sobre “O que é ser macho? Ou: o dia em que fui alvo de haters e preconceituosos na internet

  1. Rodrigo Branquinho disse:

    Sábias reflexões, amigo. Essas padronizações de comportamento, baseadas em, não sei exatamente o que, só tem mostrado pra mim um alto nível de insegurança. Eu uso saias, sou gay, e isso não faz de mim mais nem menos homem. Tantos homens são gays e não usam saias. Tantos homens não são gays e usam saias. E aí? Que padrão é esse que tentam impor?

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