Por que as editoras brasileiras continuam ignorando autores nacionais?

Responda rápido: quantos livros de autores brasileiros você viu em destaque na última vez que entrou em uma livraria? Não de youtubers, estamos falando de livros de verdade. Quantos? E quantas traduções de autores internacionais?

As duas respostas são bem diferentes né? Pode pesquisar. Dá pra contar em uma mão o número de livros de autores brasileiros que recebem destaque nas lojas: Andre Vianco, Eduardo Spohr, Augusto Cury… isso se ficarmos nos nomes novos, se formos mais pra trás teremos Paulo Coelho, Zibia Gaspareto, talvez Luiz Fernando Veríssimo ou Érico Veríssimo (em época de vestibular)… mas não vamos muito longe disso.

Autores novos? Você raramente verá.

O mesmo acontece com as obras traduzidas de outras línguas? Certamente que não. Para pegar apenas alguns dos nomes em destaque nos últimos anos: Jojo Moyes, Julia Quinn, Ranson Riggs, Voctoria Aveyard, Audrey Calan. Todos estes traduzidos do inglês. Chegaram aqui porque venderam bem lá fora e editoras brasileiras não hesitaram em lançá-los aqui. Claro, vivemos no capitalismo. A intenção é fazer dinheiro.

Agora fazemos uma nova pergunta: todos estes autores alguns anos (ou meses) atrás eram ilustres desconhecidos no Brasil. Cada editora daqui precisou de algum tempo para “vendê-los” para os leitores brasileiros. Por que uma atitude assim aparentemente é impensada para vender um autor brasileiro e apresentá-lo aos leitores?

Vamos para exemplos práticos?

No site da editora Intrínseca, por exemplo. Existe uma lista publicada dia 24 de fevereiro: 10 livros para aproveitar o Carnaval (todos da mesma editora, obviamente). Quantos são brasileiros? Um.

Se clicarmos em “lançamentos”, na primeira página aparecem 15 livros. Quantos brasileiros? Dois (um de youtuber).

Daí você pensa: ah, mas não se produz livro bom no Brasil. Todos os traduzidos são de nomes estabelecidos.

Na-na-ni-na-não. De todos os 13 traduzidos, pelo menos 8 são de autores que por aqui nunca se ouviu falar. Quanto à produções brasileiras, aí já é outra questão.

Quando partimos para lançar As Crônicas de Miramar, entramos em contato com todas estas editoras daqui. A resposta da Intrínseca foi categórica: não temos equipe para analisar originais. (aparentemente só contratam tradutores).

Outro exemplo: Editora Seguinte (linha infantojuvenil pertencente ao grupo Companhia das Letras)

Cinco livros em destaque na página inicial. Quantos brasileiros? Nenhum.

“Ah, mas são histórias originais que nunca foram contadas”, você pensa. Ledo engano, caro leitor. São livros com histórias mais manjadas que trama de novela: jovens que se rebelam contra os pais e fogem, lugares divididos em castas onde um personagem precisa enfrentar desafios para se salvar (esta está bastante em voga).

Clicamos em “Títulos” e na primeira página, dos 15 primeiros livros que aparecem, NENHUM é de autor brasileiro.

A Seguinte também foi contactada sobre o envio de Miramar para publicação. Sua resposta em 2015: não estamos recebendo originais no momento. Quando questionados sobre quando receberiam não responderam mais.

Quer mais um exemplo? Tudo bem, o último: Darkside Books.

A editora que se orgulha de trazer livros bacanas (que realmente são muito bem feitos) e diferentões. Na página inicial tem 10 títulos. Quantos brasileiros? Nenhum.

A editora que se orgulha de ser a 1ª editora brasileira inteiramente dedicada ao terror e à fantasia só publica livros estrangeiros. Também foi contactada sobre Miramar e respondeu também que não estava recebendo originais. Ou seja: a EDITORA BRASILEIRA DE FANTASIA não quis nem receber pra análise um hum… livro brasileiro… de hum… fantasia.

Aí finalmente perguntamos: será que autores brasileiros não vendem porque não são bons? Porque não existem? Ou porque as editoras sequer aceitam analisar seus trabalhos para possíveis publicações?

Quando começou a se falar na ideia de estabelecer que uma porcentagem das produções da TV à cabo fosse obrigatoriamente nacional a coisa parecia absurda. Hoje vemos programas de qualidade e gente que, se não fosse uma lei, não estaria lá. Quem sabe não chegou a hora de algo similar acontecer com as editoras?

Foi preciso uma editora de Portugal acreditar no projeto e aceitar analisar o original para que As Crônicas de Miramar fosse publicado, e mesmo com mais de 20 resenhas positivas e tendo recebido só elogios, o livro ainda tem baixa distribuição, está em meia dúzia de lojas e quase sempre enfiado numa prateleira que ninguém vê. Agora pensando em um relançamento e em vias de lançar a segunda parte da trilogia, não tem como não pensar que a coisa seria bem diferente caso uma destas editoras que enfiam traduções goela abaixo de seus leitores tivesse ao menos recebido o original e analisado seu potencial.

As Crônicas de Miramar está disponível em ebook na Amazon e em livro físico no site das Livrarias Curitiba, além de diversas outras lojas e sites.

CapaAsCrônicasDeMiramarFINAL

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9 comentários sobre “Por que as editoras brasileiras continuam ignorando autores nacionais?

  1. Augusto disse:

    Também me deixa muito triste a falta de atenção que é dada a novos autores nacionais. Pensem no tanto de narrativas ótimas que estamos perdendo! Mas acho que também é necessário fazer uma autocrítica: quantos autores nacionais *nós*, de fato, lemos? Se só lemos autores internacionais ou brasileiros consagrados, podemos realmente criticar as empresas por darem mais atenção pra eles? Fazendo o mesmo teste que você fez com as editoras, por exemplo: entre os últimos posts da seção de literatura aqui do site, *nenhum* é sobre novos autores (que não sejam vocês mesmos). Se queremos que as editoras deem mais atenção para os novos autores brasileiros, não temos nós mesmos que dar mais atenção pra eles também?

    • Flávio St Jayme disse:

      Concordamos totalmente com você, Augusto. Precisamos incentivar nossa literatura. Por outro lado, é bastante difícil encontrar novos autores brasileiros para se ler, justamente pelo mesmo motivo do post. E olha que a gente tem tentado. Temos um post muito bacana aqui sobre a HQ Daytripper de Gabriel Moon e Fabio Ba, que é literatura das melhores feitas aqui e de gente nova. Mas invariavelmente caímos na pergunta Tostines: não lemos porque não encontramos ou não encontramos porque não lemos?
      Muito obrigado por seu comentário. Abs

      • Augusto disse:

        Putz, Flávio. Eu acho complicado… Se a gente acha que literatura brasileira é importante, não dá pra ficar só esperando que as editoras mandem o release pra gente, né. Imagino que a própria Chiado tenha publicado outros autores brasileiros que vocês poderiam ir atrás. E não é como se qualquer livraria e biblioteca não tivesse uma seção de literatura nacional. (Inclusive a BPP tem uma programação de eventos ótima, e o acervo é super completo.)
        Digo apenas como uma crítica construtiva: vocês poderiam usar o Pausa para equilibrar um pouco esse jogo para os escritores brasileiros. Na Bienal acontecem dúzias de lançamentos de novos autores, por exemplo, e mesmo assim o post de vocês só falou sobre youtubers e escritores já estabelecidos. Não dava pra ter passado em outros eventos e conhecido autores novos, poxa? =/
        Talvez a questão seja que, como as editoras não divulgam, fica difícil saber por onde começar. Acho que seria legal vocês fazerem posts sobre os prêmios literários que acontecem todo ano, por exemplo! Tipo o Prêmio Sesc, que tem como objetivo justamente escolher escritores estreantes para serem publicados. Inclusive a Sheyla Smanioto, que ganhou o prêmio Sesc em 2015 e tem só 27 anos, depois também ganhou o prêmio da Biblioteca Nacional ano passado. Seriam duas oportunidades legais de ter falado dela. Já o Prêmio São Paulo de Literatura tem uma categoria exclusiva para escritores estreantes, sempre é uma chance legal de conhecer um talento novo. E o ganhador do prêmio Jabuti de melhor romance ano passado (Julián Fuks) tem apenas 36 anos (menos que os irmãos Fábio Moon e Gabriel Bá, que de fato são ótimos mas com 20 anos de carreira já não são mais iniciantes). Acho que ficar de olho nesses prêmios, que acontecem todo ano, já seria um bom guia de por onde começar para fazer a nossa parte e reverter a falta de divulgação para novos autores 🙂

  2. Jéssica Cardoso de Oliveira disse:

    Olha, não me admira muito o público leitor no Brasil ter um certo “preconceito” contra os próprios autores nacionais, um país que já nem tem o costume de ler, já vi até numa pesquisa que 75% dos brasileiros nunca entraram na biblioteca. Mas por incrível que pareça, ainda bem que tem o Augusto Cury nas livrarias e bibliotecas públicas e livrarias, mas já me deparei com um livro na biblioteca que falava do Michel Teló… Então nem sei muito o que dizer, para ser sincera.. kk Mas vou dizer uma coisa, eu nao acho que as editoras ignoram autores nacionais, nao sao todas…

  3. Carlos Rocha (@CarlosRoccc) disse:

    Eu concordo com o que o @Augusto disse, as editoras oferecem aquilo que o público procura. Se a maioria dos leitores vai atrás de livros internacionais, não podemos esperar que elas invistam pesado em autores nacionais (seria o mesmo que queimar dinheiro, infelizmente)

    Daí então o marketing já fica direcionado: seja pelas próprias editoras e também nas livrarias, e por consequência, os formadores de opinião, que só recomendam livros de autores estrangeiros. Não estou dirigindo a crítica diretamente a este site, porque acredito que isso é uma responsabilidade de todos nós, leitores: a culpa dessa triste realidade é nossa, que preferimos valorizar o que vem de fora.

    Mas uma coisa eu tenho certeza, se booktubers e sites de review se esforçassem um pouquinho mais, poderiam influenciar positivamente no mercado editorial brasileiro, afinal de contas muitas pessoas levam essas opiniões em consideração na hora de escolher o próximo livro.

    • Flávio St Jayme disse:

      Concordo com vc, mas repito a pergunta: será que se as editoras se esforçassem com a divulgação dos nacionais tanto quanto se esforça com os internacionais (mesmo em vender desconhecidos), não conseguiríamos mudar isso?

  4. Julio disse:

    Concordo totalmente com você, mas sobre o seu livro especificamente, ouso arriscar dizer que o que pode estar contribuindo com a venda inferior à desejada é a capa. Eu sei que não deveria ser assim, mas indubitavelmente o que chama a atenção da grande massa de leitores para um autor desconhecido é a capa do livro. As pessoas estão habituadas a ver essas “grandes” obras internacionais ilustradas por mega profissionais de arte digital, com imagens lindas e que dizem muito num simples relance. Vincular seu livro a essa impressão, que já está dentro dá cultura dos consumidores, seria uma sacada inteligente. Uma arte dessas no deviantart, por exemplo, não é tão exorbitante, mesmo em reais. A capa do seu livro não está ruim, mas está bem abaixo daquilo com o que as pessoas estão habituadas a ver num livro atual de fantasia. Só uma opinião. Espero que não leve a mal.

    • Flávio St Jayme disse:

      Oi Julio, tudo é muito relativo. Todas as resenhas que recebemos elogiaram a capa do livro. Achamos o trabalho da Chiado na ilustração da capa incrível e sinceramente achamos que não deixou nem um pouco a desejar com relação a outros títulos infantojuvenis como Percy Jackson, por ex. Já recebemos mensagem de gente que comprou o livro porque gostou da capa, inclusive. Abs

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