#comentáriosliterários – O Sol Também é uma Estrela, de Nicola Yoon – ou: por que as pessoas gostam tanto de livros ruins?

Sabe aquela máxima que diz não julgue um livro pela capa? Poucas vezes ela foi tão válida.

O Sol Também é uma Estrela, de Nicola Yoon, publicado pela editora Arqueiro, tem uma capa linda, feita a mão e fotografada com um artesanato belíssimo. Já seu conteúdo, não poderia ser pior, parece um compilado de clichês de personagens adolescentes que já vimos milhões de vezes.

Natasha e Daniel são dois adolescentes que vão esbarrar um no outro e se apaixonar (claro). Ambos estão insatisfeitos com a própria vida (claro) e revoltados com os pais (claro). Se vestem e agem contra o que os pais desejam (claro). Nenhum deles quer o que os pais esperam que eles façam no futuro (claro) e se questionam o tempo todo se o mundo está certo (claro).

Como bons adolescentes que são, ambos acreditam que são super espertos e espirituosos, ambos acham que conhecem tudo do mundo e que são experts em música alternativa (entenda-se Nirvana, que a autora explica quem é no início do livro, já que seu público-alvo provavelmente nunca ouviu falar). Ouvem sons “bacanas” de dizer que são ouvidos, como Abba e Soundgarden, afinal precisam mostrar que são cool. Nenhuma das pessoas à sua volta está certa, apenas os dois. Ninguém entende o mundo, apenas os dois. Ninguém sabe nada da vida (mesmo as pessoas que já viveram muito mais), apenas os dois. Haja paciência!

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Como não poderia deixar de ser em um romance deste tipo, ambos têm “corpos bem definidos”, “lábios carnudos” e “peles brilhantes” e todos aqueles outros lugares comuns que este povo aprendeu lendo romance de banca de revista. Afora o fato dele ser descendente de coreanos e ela jamaicana (e isso provocar praticamente uma terceira guerra mundial – ao menos nas cabeças adolescentes deles), não existe uma vírgula de originalidade em toda a história.

Mas a autora tenta. Por exemplo: Nicola Yoon intercala os capítulos entre os dois protagonistas. Isso é bom? Não, é péssimo. Você sempre precisa voltar no título do capítulo pra saber quem está falando, já que, super diferentões que são, os dois são absolutamente iguais (como adolescentes são).

Outra tentativa frustrada de originalidade de Yoon é colocar “capítulos-anexos” no meio da história (pelo menos até a metade do livro, depois ela se esquece). Por exemplo: Natasha passa por uma segurança. No próximo capítulo a autora fala da segurança. Eles são atendidos por uma garçonete. O capítulo seguinte é sobre a garçonete. E assim vai. O que parece uma boa ideia é extremamente frustrante. É quase como você estar vendo um filme e cortar para o comercial. Além de totalmente fora de contexto, não existe UM destes sub-personagens que seja feliz. Todos são suicidas, frustrados, doentes ou problemáticos. O que nos leva a entender que no mundo de Yoon somente Natasha e Daniel são (ou serão) felizes. A autora não consegue sequer retratar adolescentes reais, se prendendo ao retrato romantizado que a ficção gosta de pintar da idade.

Para piorar ainda um pouco mais, o final do livro é absurdo de tão lugar comum. Se você já viu qualquer último capítulo de novela você já viu o fim da história de Natasha e Daniel. O empenho da Editora Arqueiro em trazer o livro para o Brasil enquanto ignoram autores brasileiros é apenas mais um caso de editoras nacionais que só se esforçam para ter autores de fora e continuam acreditando e perpetuando a imagem de que não existe literatura no Brasil.

É difícil entender como O Sol Também é Uma Estrela se tornou “número um na lista do New York Times”. É difícil entender como as pessoas gostaram. A única conclusão é que sim, as pessoas gostam de livro ruim. É quase como se autores como Nicola Yoon subestimassem a inteligência de seus leitores. E estes, por sua vez, se deixassem acreditar. Caso você esteja procurando títulos com personagens adolescentes que valem a pena, tente Aristóteles e Dante Descobrem o Universo, de Benjamin Alire Saez; ou O Oceano na Beira do Caminho, de Neil Gaiman; ou ainda Todo Dia de David Levithan ou As Crônicas de Miramar, de Flávio St Jayme e Wemerson Damasio. 😉

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