Grace and Frankie: um programa que o Brasil jamais iria produzir. E que você não pode perder

Enquanto no Brasil o casal gay de uma novela sofre com a rejeição de seu grande público e em Hollywood a atriz Maggie Gylhenhaal afirma ter sofrido preconceito por causa de sua idade, o portal Netflix esfrega na cara do mundo um seriado protagonizado por quatro atores na faixa dos setenta anos com dois deles (os homens) interpretando um casal gay. Sinal dos tempos? Coragem? Tiro no pé? Ainda não se sabe, mas o fato é que Grace and Frankie é diferente de tudo o que a tv ou o cinema americano já produziram. E de tudo o que a tv Brasileira jamais produzirá. E é sensacional.

Foi esta semana que a atriz Maggie Gylehnaal (de Batman – O Cavaleiro das Trevas) afirmou que, aos 37 anos, foi considerada “velha demais” para viver o interesse romântico de um homem de 55. O chamado ageism (algo como “idadismo” no Brasil), vem de mãos dadas com o preconceito e o machismo. Já que é a mulher que deve ser mais nova nesta relação de casal. Hollywood é assim. E o Brasil, como um país enraizadamente machista, não seria diferente. Basta ver dois exemplos recentes em novelas: o Comendador José Alfredo de Alexandre Nero em Império: com 45 anos, o personagem mantinha um caso com uma Lolita de 19 vivida por Marina Ruy Barbosa. Mais recente, o personagem de Cássio Gabus Mendes (53 anos) em Babilônia vive um romance com a personagem de Sophie Charlotte, 26 anos e cara de 19. Claro que em Hollywood não é diferente e os casos são incontáveis. Desde James Bond até a própria Gylenhaal, que aos 32 anos foi o interesse amoroso de Jeff Bridges, 65, em Coração Louco.

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O que dizer então de casais gays da terceira idade? As personagens de Fernanda Montenegro e Nathália Timberg (ambas de 85 anos) foram anunciadas como um dos núcleos mais importantes de Babilônia, vivendo um casal gay que lutava por seus direitos num mundo em transformação. Após um beijo carinhoso no primeiro capítulo, foram limadas da novela das 21h. No cinema recente, Alfred Molina (62) e John Lithgow (69) foram um casal no delicado e sincero O Amor é Estranho. Mas o assunto ainda é tabu. Basta lembrar que foi o preconceito que tirou o Oscar de melhor filme de O Segredo de Brokeback Mountain em 2005.

Então como Grace and Frankie se coloca contra tudo isso e ainda apresenta um retrato da terceira idade num seriado tão aguçado como poucas produções recentes conseguiram? Longas como O Exótico Hotel Marigold, As Garotas do Calendário ou Pride tiveram a coragem de expor estas pessoas de mais idade ao grande público. De mostrar que, mesmo no auge dos seus 70 ou 80 anos,a inda existe desejo, humor e relações humanas.

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A premissa do seriado por si só já é interessantíssima: Grace é casada com Robert e Frankie com Sol. Uma noite em um jantar os dois homens (que são sócios em uma firma de advocacia) resolvem anunciar para as esposas que vão pedir o divórcio para casarem entre si. Confessam que há 20 anos mantêm um relacionamento e que agora decidiram não manter mais isso em segredo. Robert e Sol têm 74 anos.

Com esse ponto de partida as vidas dos quatro protagonistas serão um retrato de relações. Relações de amizade, de companheirismo, sexuais, matriarcais, entre irmãos e laços que não existiam e passarão a ser construídos justamente por conta desta revelação. Robert e Sol estabelecerão seu relacionamento não sem respingar as consequências disso em suas (ex)esposas. Robert e Grace não são exatamente amigos, e parecem inicialmente dar graças quando a separação acontece. Já Sol e Frankie são acima de tudo amigos, e a separação será mais traumática. Os filhos já crescidos também enfrentarão à sua maneira a revelação.

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Um texto excelente, uma direção ágil, um humor que a todo tempo flerta com o drama. São esses vários dos pontos a se destacar em Grace and Frankie. Um dos pontos mais altos, no entanto, é a força de seu elenco: Jane Fonda, Lily Tomlin, Martin Sheen e Sam Waterson. Todos acima dos 70 anos e todos nomes de grande importância no cinema e TV. Jane Fonda, vencedora de dois Oscars, é conhecida por clássicos como Barbarella (de 1968) ou filmes mais recentes como A Sogra; Lily Tomlin fez clássicos da comédia oitentista como Um Espírito Baixou em Mim A Incrível Mulher Que Encolheu; Martin Sheen foi o exemplo me masculinidade em filmes como Apocalipse Now Os Infiltrados e interpreta um gay sem problema algum; Sam Waters, o menos conhecido entre eles, fez O Grande Gatsby (versão de 1974) e Mamãe É de Morte. Todos são atores com carreiras estabelecidas que enfrentam com naturalidade a velhice em cena. Criado por Martha Kauffman (a mesma mente por trás do fenômeno Friends), o seriado reúne Fonda e Tomlin 35 anos depois do sucesso de Como Eliminar Seu Chefe, onde as duas contracenavam.
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Fonda e Tomlin em cena em Como Eliminar Seu chefe, de 1980

As tramas, com coragem de expor a sexualidade das senhoras de 70 anos que estão redescobrindo os relacionamentos, ou o relacionamento dos dois homens, que após 40 anos de casamento se colocaram homo homossexuais perante a família são os maiores destaques de Grace and Frankie. Com sinceridade e delicadeza o seriado expõe os dramas destas quatro pessoas: os homens recomeçando uma vida juntos após os 70 anos em novos modelos de comportamento e sem saber o que a sociedade espera deles, caindo em problemas como com que termos devem se referir uma o outro? Namorado? Marido? Companheiro? E as mulheres tendo que se redescobrir sozinhas sem o parceiro com quem conviveram nos últimos 40 anos e criaram filhos. O que fazer? Como ocupar o tempo? Simplesmente esperar a velhice bater? Encontrar outro parceiro? E como manter aquela relação entre as duas, com dois temperamentos tão diferentes?

São as relações humanas que norteiam toda a história. Aquela nova vida que estes quatro personagens terão que descobrir como viver. E isso, por si só, é muito mais do que a tv e o cinema atuais estão dispostos a mostrar. Com Grace and Frankie (que já tem a segunda temporada garantida) o Netflix se firma como um dos mais relevantes produtores de conteúdo do momento. Seja pelos elogiados tons políticos de House of Cards, pelo super-herói realista que é Daredevil ou pelo retrato cru e ao mesmo tempo suave e divertido da velhice em Grace and Frankie.

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